Na internet as coisas são muito rápidas, você tem informações em milésimos de segundos e nem sempre são informações seguras. Assisti recentemente um vídeo que me deixou muito preocupada de uma jovem, leitora de dark romance, que apesar de ser +18 afirma gostar do estilo mas não ter interesse em discussões sobre esses temas na internet. Ela se justifica dizendo que quem critica geralmente não lê o gênero ou não é o público-alvo, portanto, não "entenderia".
Eu particularmente acho que toda obra artística é passível de crítica, e que toda obra tem um viés, e o posicionamento de todos e a tentativa de compreensão do seu gosto/desgosto não é somente válida como necessária.
Confesso que não sou leitora do gênero, mas desde nova leio livros que me deixam constrangida enquanto mulher. As mulheres geralmente no meu gênero predileto (ficção científica) são comumente tratadas como extremamente emocionais, abstendo-se de lógica mais básica, narcisistas e fúteis ou quando simplesmente não existiam em toda narrativa. Já sofri várias vezes disforia de gênero na minha adolescência e início da minha vida adulta por simplesmente não querer me encaixar nesses esteriótipos. Por essa minha disforia e baixíssima auto-estima, visto que eu não era "o que se esperava de uma mulher" passei por diversas relações extremamente abusivas por homens que se aproveitavam da minha condição.
Costumo ver várias sinopses de livros e me interessei em ver resumos sobre livros que jamais leria, graças ao Paulo Ratz em seu Livraria em Casa do youtube, e nessa leva o dark romance era o tipo que eu tinha maior curiosidade mas sempre tive preguiça de ler. E foi aí que a minha curiosidade virou assombro e me senti obrigada a dizer meus dois centavos a respeito desse fenômeno.
Ontem vi um vídeo do youtuber Radio Guerrilha sobre o Marilyn Manson e a história que ele apresentou pareceu retirada exatamente de um Dark Romance: sequestro, abuso psicológico, estupro. Quem puder assista, o episódio se chama "Porque odiamos Marilyn Manson". É sobre isso que estamos falando: um Dark Romance da vida real: o verdadeiro abuso trás feridas físicas e emocinais profunda e não há nada de belo ou perdoável. Ao contrário. O perdão que se dá ao abusador dará a ele fôlego para ser mais violento.
O nosso contexto histórico é preocupante, a extrema direita está cada vez mais organizada, o acúmulo de capital está proporcionando o financiamento de grupos que - eu duvido muito que seja uma ascenção natural - romantizam coisas como tripla jornada para mulher (dona de casa, trabalho fora, cuidar dos filhos), romantização da idade média, vertentes religiosas cada vez mais conservadoras e grupos como Red Pills que não escondem seu ódio e sua narrativa da pretensa superioridade de homens sobre mulheres. Esses movimentos estão cada vez mais populares, com muitas visualizações, e geralmente com eles também tem uma grande e profissional produção.
Sei que para quem lê esse texto eu esteja me aproximando da imaginação de um "Black Pill" conspiracionista onde tudo no mundo está próximo a ruir. Mas a diferença é que há respaldo na realidade, é um movimento como uma inundação que vai tomando as pessoas aos poucos. O tamanho desses canais e sua produção já são alertas o suficiente, encher o imaginário das pessoas com narrativas de violência e submissão das mulheres talvez não seja a melhor maneira de lidar com o que está prestes a vir.
É preciso estar atento, a arte é uma das primeiras coisas a se cristalizar numa cultura. Não apenas consumir, mas politizar é indispensável para que não caiamos em armadilhas desastrosas. Por que gostamos do que gostamos, qual o contexto, o que nos fez gostar/se interessar/naturalizar uma determinada situação? Nada é impune e tudo é semente para a sociedade que teremos amanhã.

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